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  • Foto do escritorFelipe Alecrim

Do alto do meu quarto andar


"Do alto do meu sexto andar, eu não vejo mais o pôr do sol nem o rio que eu aprendi a amar…" - Lucas Silveira.


Se me permitem a inspiração.


Do alto do meu quarto andar o sentimento é de angústia, às vezes. De pedir perdão por coisas que você nem tem a ver, mesmo depois de ficar repetindo várias e várias vezes o mantra "se o problema só existe na cabeça da pessoa, então o problema é dela" e bla bla bla.


O sentimento é de angústia. O desejo é ter um gênio da lâmpada pra fazer apenas um pedido: PAZ (pra todos os problemas dos outros), porque os meus eu até sei como lidar, mas a angústia de ver gente cada vez mais dividida, cultivando ódio e brigando por assuntos mais inúteis. A paz dos outros me daria paz.


Do alto do meu quarto andar eu não vejo mais as árvores que via, não escuto mais o som do telefone ou das inúmeras calopsitas. As pessoas caminhando na rua, a enxurrada ou os carros descendo e subindo. Do alto do meu quarto andar geralmente é mais silencioso do que qualquer outra coisa. Não tenho mais o contato fácil, o cheiro de café fresco, a fruta cortada e o grito de "o almoço está pronto!". Do alto do meu quarto andar é o interfone avisando que chegou o delivery ou a airfryer apitando quando a batata está pronta.


Do alto do meu quarto andar eu não vejo mais o barulho do portão abrindo indicando que o vizinho chegou e nem ouço mais a Maggie latindo (saudades, Maggie). Por um momento ouvia o som da casa de show, em outra fase era o louvor da igreja e hoje em dia é o trem (sim, o trem) buzinando ou o ronco do motor da moto na avenida.


O cheiro. Do alto do meu quarto andar existem os cheiros das refeições apenas. Sejam bons ou ruins, dá pra sentir. Ah, e o cheiro da chuva. Diferente dos cheiros mais fortes de café sendo moído logo na casa acima, do churrasco no vizinho de baixo e também às vezes do forte cheiro de esgoto que assombrava.


Do alto do meu quarto andar tem outros prédios com outros quartos andares. De pessoas completamente aleatórias que eu vejo e elas me veem, mas sem saber nada um do outro. Já vi brigando, namorando, jantando, lendo, jogando videogame, vibrando com o gol do seu time e provavelmente já me viram também. Ah, e tem também o lado esquerdo que fica um cemitério. Pois é. Não sei lidar com morte, velórios e enterros e moro ao lado de um cemitério. Não é bem ao lado, mas tá ali, na esquerda do meu quarto andar.


A chuva geralmente vem no sentido direto da janela. E isso é bom por conta do relaxante barulho, mas ruim por geralmente molhar o chão mesmo com a janela fechada. Inclusive, a impressão é de que chove mais aqui, mesmo não tendo mais o barulho da água batendo na telha que tinha antigamente. A chuva parece mais frequente e mais grossa, mas provavelmente é só impressão mesmo.


Do alto do meu quarto andar não tem o nascer, mas pra compensar me deparo todos os dias com o pôr do sol. Cada dia com tonalidades e intensidades diferentes. Mesmo nos dias chuvosos ou nublados, ele se despede, se põe e se vai. Mas, sempre volta no dia seguinte. E eu sou daqueles que gosta mais do pôr do que do nascer do sol, então tá tudo bem.


No elevador, se analisando no espelho enquanto desce, pensando que o porteiro pode estar te vendo tirando selfie e possivelmente rindo da sua cara, percebendo que a pessoa que vai entrar te viu falando ou cantando sozinho. Falar sozinho, inclusive, é ato sempre presente. Tem a Alexa, tinha o cacto Fernando, mas o principal ouvinte sou eu mesmo. E o principal palestrante também. Dos shows para a platéia imaginária, os parênteses que se abrem e nunca se fecham, as inspirações, até as discussões inúteis que só existem dentro da cabeça, tô sempre ali… tagarelando.


Mas, o fato é que do alto do meu quarto andar é tudo comigo mesmo. Sem ninguém pra dizer o que fazer, como fazer, porque fazer e etc. Tive que entender e aprender que as decisões, reflexões e consequências estão aqui, no alto do meu quarto andar. Os sorrisos estão aqui, assim como as lágrimas também. As comemorações e os fracassos, tudo por aqui. Não tem mais pra onde correr.


Senso de amor próprio, de racionalidade, de ação, de auto estima, de pertencimento, de urgência, de preguiça, de planejamento e de resolução de conflitos internos. Tudo isso dentro dos quase 60 metros quadrados, do alto do meu quarto andar.


E isso tá bem longe de ser ruim. A reflexão faz parte. E como disse, a angústia é mais por não ter força ou influência nos problemas fora daqui. Os daqui tem que lidar. Os de fora causam a mais pura angústia.


Do alto do meu quarto andar o sentimento é de gratidão. Sem ter sequer coragem de pedir algo a Deus, apenas agradecer, continuar lutando todos os dias na tentativa de ser alguém melhor e na busca pela paz. O cheiro, a visão e o som fazem parte de uma nova fase e uma nova vida. Como as portas, que me dão entrada ou saída a outros espaços, que se abrem, mas também se fecham. Abafam ou liberam o som, mas geralmente tudo isso pela força e opção de quem manuseia. Tenho 6 portas em 60 metros, tenho uma infinidade de opções a serem abertas ou fechadas diariamente.


Tudo isso do alto do meu quarto andar.

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